Obá, lá vem ela! Conheça o NIA – uma mina, um podcast e mil ideias pra trocar

24131099 1472112239572438 3447518928707391579 n - Obá, lá vem ela! Conheça o NIA - uma mina, um podcast e mil ideias pra trocar
Texto/Roteiro: Luana Protazio
Imagens: Arquivo pessoal da entrevistada
O Obá, lá vem ela! é a nova categoria do site que apresentará entrevistas com mulheres pretas do cotidiano atuantes nos mais diversos meios. Aborda seus projetos, visões de mundo, ideais e perspectivas. Obá, lá vem ela! se expressando e construindo narrativas.

Com a introdução de um som clássico do Pete Rock, um microfone, um gravador e mil ideias para desenrolar de um quartinho de apê diretamente de Itaquera para quem se dispor a escutar: nia, um podcast por Ana Beatriz Venâncio

Eu conheci a Ana be numa manhã de domingo num brechó de rua no Anhangabaú, em São Paulo. Não, muita calma. Eu abracei a Ana be pela primeira vez neste dia. Nós já nos conhecíamos há anos de muito papo, sonhos e devaneios. A Ana be é um desses tesouros que os grupos de facebook me trouxe e ficou.

E brilhou.

17353357 1225032894280375 122292602060403008 n - Obá, lá vem ela! Conheça o NIA - uma mina, um podcast e mil ideias pra trocar

Ana Beatriz tem 20 anos “de pura aquarela e música pulsando”, como costuma dizer. É estudante da UFABC e integrante do Coletivo Vozes, um coletivo negro de resistência dentro do campus, “todo dia eu vivo o coletivo vozes da ufabc, eles são minha coluna vertebral e apoio pra me manter no mundo acadêmico.”

Como muitas de nós, Ana Beatriz busca uma forma de se expressar, “eu tô há anos pensando num jeito de expor minhas ideias de algum modo, principalmente no que se refere aos assuntos de hip hop e música em geral, já que normalmente as mídias, inclusive a internet, focam em homens falando. Eu não queria ser youtuber, então fiquei meses bolando uma pauta, aí enrolei até chegar numa linearidade que eu gostaria de ouvir. Comprei um microfone e numa madrugada fui atrás de edição, gravei todo o primeiro episódio do nia e postei.”

Podcasts são arquivos digitais de áudio criado pelos próprios usuários com o intuito de abordar os mais variados conteúdos. Os canais de podcast podem tratar desde a política na china ocidental até o último capítulo da novela das oito.

A facilidade em se produzir um podcast me faz acreditar no potencial democrático deste meio, sendo uma tendência crescente e uma ferramenta muito eficaz e dinâmica que pode trazer uma outra perspectiva sobre fatos e narrativas. Ainda assim, os maiores e mais conhecidos canais são produzidos por homens brancos.

Ana Beatriz é uma voz feminina preta disputando narrativas neste meio.

20032098 1347041628746167 6181106874760422665 n 200x300 - Obá, lá vem ela! Conheça o NIA - uma mina, um podcast e mil ideias pra trocar

 

 

“Eu gosto de pensar que tô apresentando o yo mtv raps (risos) mas falando sobre mil coisas. Faço podcast sobretudo pra mim, eu dava falta de conteúdo nessa plataforma”

 

processo criativo: “um podcast sou eu falando comigo”

“Eu gosto de me ver como agente de mudança, pensar que em qualquer quebrada por aí, alguém vai ter acesso à internet e me ouvir. Mas não só ouvir, e sim internalizar o que eu digo e pensar que é algo bom, por isso eu sempre termino meus podcast com uma mensagem de incentivo. Nem é pra me promover, é pra disseminar um modo de pensar que faça acordar e pensar “hoje eu vou trocar ideia com meus amigos do bairro, hoje eu vou fazer o dia valer”, ainda mais pro tanto de jovem negro sem perspectiva que tanto falam.

Às vezes é só outro modo de interpretar as coisas que faz uma diferença gigante.”

Quem escuta um episódio do Nia percebe uma estrutura muito gostosa e cheia de referências!

meu processo criativo é um caderno e um dia livre ouvindo instrumental do Pete rock, que inclusive é de onde vem a vinheta. Eu passo um dia quietinha escrevendo MUITO! 10 minutos de podcast são resultados de muitas folhas de rascunho bagunçado, cheio de setinhas e post its. Normalmente é uma ideia que eu fico amadurecendo por semanas até chegar o momento de passar tudo pro papel, então eu escrevo e gravo tudo de uma vez, senão a linha de raciocínio se perde. O primeiro podcast eu levei 6 horas, o que foi uma madrugada inteira, pra gravar e editar, de tanta ideia que borbulhou em mim.

O assunto do podcast vem do nada, por exemplo, um dia eu fui numa sessão de cinema com roda de conversa com o cineasta, meio por acaso, e lá estava o DON LETTS! Don Letts trabalhou retratando todo o movimento punk, ele filmou ‘bad brains’, ‘blondie’, todo mundo que eu ouvi muito, nem só de rap vive o negro. Essa conversa me deu muitas ideias, foi aí que nasceu o nia 3.“

Don Letts - Obá, lá vem ela! Conheça o NIA - uma mina, um podcast e mil ideias pra trocar
Don Letts, principal articulador da conexão entre o reggae e o punk

“A estrutura é algo que pra mim só vai fluindo, na minha cabeça esses assuntos que eu falo são tão conectados que apenas sai do modo que eu falaria, um podcast sou eu conversando comigo. Por isso gosto tanto de fazer! Esse podcast é meu xodó, ele é fruto de horas de pesquisa e muito suor, pra sair tudo coerente.”

Pluralidade e referências que se conectam

“A minha bagagem é diversa e de nada ela vale se eu não dividir com os outros, num contexto legal, e o que melhor que esse podcast pra passar essas ideias? Eu meio que continuo fazendo pra provar essa pluralidade. Não sou eu apenas falando de hip hop, sou eu falando dos diversos modos de você experienciar o que eu cito, cada um tem um jeito de interpretar a agregar tudo o que ta naqueles minutinhos. Por isso eu começo com um poema, ou uma letra de música, ou só dando um oi.

Tanto amigo que escuta, vem falar comigo e diz que conheceu e foi atrás de tal coisa porque EU DISSE!

É a introdução da introdução, tudo que está lá é um assunto introduzido. Eu me divirto quando alguém que ouve vem falar comigo sobre um assunto que eu citei bem de leve.“

E por falar em citações…

“EU ESTOU SEMPRE CITANDO ALGUÉM, o poema sobre as mulheres negras é uma música, da Larinu, a mesma que eu usei de fundo no episódio. Quando eu fui pedir pra lari pra usar e mostrei pra ela, foi indescritível, ela adorou! Eu gosto de ter referências até na introdução, desde uma música do b negão até algo que eu vi no youtube e achei que seria pertinente.“

A música é Sagrada, da larinu, e abre o nia ep. 4. Escute a música aqui.

“O nia é um coletivo de influências, é um plural de gente que indiretamente está presente naqueles áudios, desde quem me introduziu os sons que eu citei, até quem ouve com frequência e sabe que eu tô falando diretamente com ela.“

21272276 1391768377606825 4295814708432152742 n 182x300 - Obá, lá vem ela! Conheça o NIA - uma mina, um podcast e mil ideias pra trocar

do you know what nia stands for? 

Representatividade, hip hop, referencias, valorização local, corres independentes, a importância dos amigos, pluralidade da pessoa negra, estigmas e estereótipos, conexões, identidade, história.. uau, como vimos o nia aborda isso tudo e muito mais.

Recentemente, a Ana me mandou mensagem para contar algo que achamos incrível: nia é também o 5º princípio do Kwanzaa uma celebração afro-americana de caráter interreligioso, que dura sete dias, (26 de dezembro a 01 de janeiro) e envolve a reflexão sobre sete princípios básicos:

Umoja, união; Kujichagulia, auto-determinação; Ujima, trabalho coletivo e responsabilidade; Ujamaa, economia cooperativa; Nia, propósito; Kuumba, criatividade; Imani, fé.

Nia, na celebração kwanzaa, é propósito. ‘Fazer com que nossa vocação coletiva construa e desenvolva nossa comunidade para restaurar o nosso povo à sua grandeza tradicional. O objetivo de trabalho em grupo para construir a comunidade e expandir a cultura africana

Quando eu tive a ideia ‘OK VOU FAZER UM PODCAST’, eu estava ouvindo aquele álbum do blackalicious, que se chama nia, mas eu queria um nome curtinho, uma sigla, então nia é uma sigla que se estende pro que você bem entender, desde Nossas Ideias em Áudio, até Negras Inscrições da Ana. Ta em aberto, a melhor sigla é o que você acha que é.

NIA é nós no tempo futuro.

“Eu queria fazer uns áudios com muita gente! Entrevistar uns amigos, chamar todo mundo e gravar a gente conversando. Ou deixar o microfone aberto para alguém e mandar “dessa vez quem grava o podcast é você” (risos). Tem muita coisa pra falar ainda, então as possibilidades estão aí e elas são infinitas.

Consideração final é apenas um obrigada gigante para todo mundo que se propôs a ouvir o nia, desde o primeiro, e quem está disposto a me escutar, seja com ou sem podcast.“

Acompanhe o nia podcast no soundcloud.

“Eu escrevo muito, observo muito, pra trazer à superfície o que fica no fundo e nem todo mundo enxerga. Acho que isso é um talento, talvez seja mesmo.“

 

Deixe uma resposta