Construir cenários positivos – um convite e uma possibilidade.

Construir cenários positivos – um convite e uma possibilidade.

“Quando nos amamos, desejamos viver plenamente. Mas quando as pessoas falam sobre a vida das mulheres negras, raramente se preocupam em garantir mudanças na sociedade que nos permitam viver plenamente. Geralmente enfatizam nossa capacidade de “sobreviver” apesar das circunstâncias difíceis, ou como poderemos sobreviver no futuro. Quando nos amamos, sabemos que é preciso ir além da sobrevivência. É preciso criar condições para viver plenamente. E para viver plenamente as mulheres negras não podem mais negar sua necessidade de conhecer o amor.” (bell hooks em vivendo de amor)

Texto por Luana Protazio

Num bate-papo fortalecedor com Patrícia Alves, mulher preta, Iyalorixá do Ilê Axé Iya Mi Agbá, pedagoga, mestre em comunicação, pesquisadora do NeoCriativa e do NUPE/Unesp, e coordenadora de Educação no Instituto Omolara Brasil (uau!), muitas reflexões vieram à tona e me inspiraram, como era de se esperar.

2016 foi um ano difícil, marcado por retrocessos, direitos questionados e retirados, avanço de uma elite conservadora, racista, machista, capitalista. Foram muitos os momentos, principalmente para nós como população negra, principal vitima das desigualdades e exclusão, em que pareceu não haver mais de onde tirar forças para continuar, momentos de abismos e notícias tão absurdas e violentas à nós que não pareciam ser reais.

Há um estigma sobre a mulher negra que nos expõe à uma violência não declarada mas gritante: o da mulher negra forte, a que tudo aguenta. Esse estereótipo age tanto em nossa saúde física, se pensarmos por exemplo na violência obstetra à que somos submetidas por sermos “fortes”, quanto em nossa saúde mental e emocional que é invisibilizada, desmerecida, colocada de lado, às vezes até por nós mesmas já que nos fizeram acreditar que prezar por esse aspecto é superficial. Afinal, é necessário pensar em nossa sobrevivência primeiro certo? Hum, não deveríamos ter que escolher em se preocupar apenas entre sobreviver e não morrer. O racismo é uma violência também psicológica cotidiana.

“O autoconceito – maneira pela qual a pessoa organiza as percepções sobre si mesma, é um processo que começa no nascimento, desenvolve-se ao longo da vida, de acordo com as experiências vivenciadas do dia-a-dia. O conjunto das autopercepções, algumas temporárias outras permanentes, forma o autoconceito e influencia o comportamento dos indivíduos, associa-se à autovalorização positiva ou negativa e é a referência através da qual a pessoa vê o mundo que a rodeia, numa dinâmica complexa que envolve a organização das idéias e a crença em si mesma. Logo o efeito do racismo vai incidir diretamente na construção de um autoconceito negativo e desvalorizado sobre si mesmo, uma vez que ele ataca o sujeito naquilo que lhe dá consciência de identidade, seu corpo. O ataque ao corpo do negro é constante; é sabido que o corpo está demarcado pelos valores sociais, nele a sociedade fixa seus sentidos e valores. Portanto essas situações podem provocar processos de desorganização psíquica e emocional.” (I Seminário Saúde da População Negra 2004)

É fato que se manter numa sociedade que nos violenta à todo momento nos obriga a construir uma postura combativa, e como no decorrer de toda nossa existência nós resistimos e continuamos a lutar. Mas sermos obrigadas à lutar diariamente é exaustivo. Merecemos e temos o direito à uma vida plena.

Cenários positivos como construção de plenitude

Milton Santos em Por uma Outra Globalização, observa que o mundo nos é colocado sob 3 óticas: “o primeiro seria o mundo tal como nos fazem vê-lo: fábula; o segundo seria a comodidade com o mundo tal como ele é: perversidade; e o terceiro, o mundo tal como ele pode ser: possibilidade”. Pois bem, lutamos diariamente contra a perversidade, através das possibilidades. Essas são construídas por nós em busca de uma realidade menos desigual e discriminatória. São as brechas que encontramos para levantar o debate racial e de gênero em espaços homogêneos e pautar as nossas vivências onde for.

Muitas dessas possibilidades se dão por meio da palavra.

A Palavra, ou oralidade, é um dos valores civilizatórios afro-brasileiros, “Herança direta da cultura africana, a expressão oral é uma força comunicativa a ser potencializada. Jamais como negação da escrita, mas como afirmação de independência. A oralidade está associada ao corpo porque é através da voz, da memória e da música, por exemplo, que nos comunicamos e nos identificamos com o próximo.” {grifos meus}

Para Patricia, oralidade é a ética e o compromisso com a palavra, porque a palavra constrói cenários sejam positivos ou negativos. “(…)As palavras duras constroem cenários muito difíceis de desmoronar, e reverberam rápido, de maneira destrutiva. O que o afeto reverbera é um cenário fértil, de possibilidades. E as adversidades da vida que vão acontecendo encontram um lugar/corpo mais preparado, e não um lugar/corpo enfraquecido. Saio de cenários positivos de certa maneira fortalecida.”

Elogie uma irmã negra, tendo como pilares principais autoestima e conhecimento, se propõe a ser também uma possibilidade coletiva, a possibilidade de construir cenários positivos. São tantas as pressões, lutas diárias e a violência também simbólica, precisamos de espaços onde possamos encontrar leveza, união, diálogos e fortalecimento para nos lembrar que não estamos nessa luta sós, que podemos ser apoio e encontra-lo na outra também. Cenários positivos são cenários férteis, porque cenários negativos nos são expostos à todo momento, são cenários que nos permitem renovar nossas energias, o cuidado e valorização do nosso bem-estar, ou seja, a proximidade de uma vida plena, que nos é negada desde os tempos remotos.

Esta é a proposta e o convite: que possamos compartilhar cenários positivos juntas.

 

Leia também: Sobre elogios e autoestima. Porque elogiar uma irmã negra?

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