Você deve estar pensando o que você tem a ver com isso…

Você deve estar pensando o que você tem a ver com isso…

Desumanização da população negra, indiferença e indignação seletiva da sociedade são aval para a violência, encarceramento e genocídio.

texto por Luana Protazio

Nota: Este texto é um complemento do Me ver pobre, preso, ou morto, já é cultural, que apresenta dados que apontam que população negra e pobre está mais suscetível ao encarceramento, assim como ao homicídio. Leia aqui na íntegra.

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O que se iniciou no primeiro contato do europeu com povos africanos, se firmou na escravidão, permaneceu no período pós abolição, e é ferramenta de controle ainda hoje: a desumanização da população negra.

Teorias eugenistas, políticas de imigração, processo de miscigenação e democracia racial foram aparatos que buscavam provar a inferioridade racial do negro, afirmando muitas vezes que o negro tinha disposição inata à vagabundagem, malandragem, tendências ao alcoolismo e à marginalidade. Inclusive, é a partir dessa construção inferiorizada do negro que o branco forja sua própria identidade e imagem, como superior, belo, e padrão de normalidade.

“Para entendermos a posição do negro no que diz respeito às representações associadas ao corpo, é necessário levarmos em conta a herança do sistema socioeconômico escravagista, que não só atribuía ao negro o lugar de mão-de-obra escrava, com todas as implicações sociais de condições de vida miseráveis, mas que também construiu teorias que, em última instância, tinham como objetivo tomar o efeito pela causa, ou seja, atribuir as condições de vida que os negros efetivamente experimentavam a limites e tendências “naturais”. (NOGUEIRA, Isildinha)

Quem acredita que essas idéias ficaram num passado tão tão distante, confirmam que o mito da democracia racial se firmou de fato. Hoje, outros aparatos são usados para condicionar o negro e a negra à inferioridade e subjugação, como os estereótipos históricos perpetuados e naturalizados pela mídia e meios de comunicação.

Seria possível discorrer sobre como os estereótipos constroem o “nós e eles” e atuam nos diversos âmbitos (culturais, estéticos, etc), mas esse texto surge da minha inquietação e, como mulher negra e comunicóloga, preocupação quanto ao seu uso para legitimar violência.

Ao desumanizar o outro, a empatia com este morre.
Qualquer ato violento contra o desumano pouco importa porque se justifica. Isso explica as estatísticas que gritam o homicídio e encarceramento em massa do jovem negro, e a nula comoção nacional. 

Na primeira imagem: Claudia Ferreira Silva vítima de uma operação da Polícia Militar do Rio de Janeiro em 2014. Após ser baleada, Claudia foi arrastada pela viatura por cerca de 300 mts.  Na segunda imagem: Cleidenilson Pereira da Silva, espancado até a morte e amarrado nu ao poste em linchamento popular, acusado de tentativa de assalto à um bar na região. 

Suzane Borges explica que a mídia tradicional atua com um quadro comum de referências, onde corpos brancos correspondem a um código conhecido de normalidade, beleza, afeto, etc., enquanto corpos negros, para uma decodificação mais expressiva, serão enquadrados dentro do desviante, feio, errado, imoral, etc. Imagem e imaginário têm a ver com a política real. Enquanto a gente tiver ligando uma coisa a outra, o preconceito vai ser uma profecia autorrealizada no Brasil. Nós, negros, com uma tendência a sermos mais perigosos, uma ameaça à sociedade, somos a maioria nos presídios. Você percebe como o preconceito confirma um dado da realidade, confirma a partir de um dado que é irrisório, ou da suposta narratividade? Os nossos corpos não são propensos a marginalidade ou a pobreza, eles só o são porque há um regime racista que nos coloca nessa prisão de imagens.” afirma, em entrevista ao Ponte Jornalismo. (Leia na íntegra aqui)

Uma tática silenciosa onde o racismo institucional – que mata, encarcera e marginaliza -, se retroalimenta do estrutural – que naturaliza, perpetua, e condiciona. Além disso, ao delimitar os cidadães do bem e os cidadães do mal, o país não precisa investir força e atenção as causas dos problemas em segurança pública, violência, pobreza extrema, outras – até porque isso implicaria uma mudança estrutural inclusive onde está detido o poder -, e sim apenas reforçar os efeitos, como inatos.

Veja: 5 jovens assassinados dentro de um carro, uma mulher arrastada pela viatura, uma criança assassinada dentro da escola, outra em frente de casa, e outra na porta do restaurante enquanto pedia comida, um homem injustamente sentenciado à 11 anos de prisão. Negros. Todos negros. Não há a possibilidade desses fatos acontecerem à pessoas brancas sem ao menos uma revolta e indignação geral no país – isso caso acontecesse, o que já é quase nulo. Mas são negros, e periféricos, por isso aconteceu.

Sempre lembro de uma fala do documentário 13ª Emenda, e insiro aqui: “As pessoas dizem “Como as pessoas podem ter tolerado a escravidão? Como podem ter aceitado isso? Como as pessoas podem ter participado de linchamentos? Como as pessoas justificavam a segregação, a separação de negros e brancos… Isso é loucura. Se eu vivesse naquela época nunca teria tolerado algo assim.” A verdade é que estamos vivendo nessa época, e estamos tolerando.”

Em suma, o genocídio da população negra e periférica junto ao encarceramento arbitrário em massa só acontecem porque ninguém se importa com essas pessoas. Não há comoção. Quando dizemos que vidas negras importam, é porque não houve um momento na história desde aquele primeiro contato onde vidas negras, de fato, foram vistas como dignas de plenitude e atenção.

Para mim, só a escrita desse texto e busca de referências dói. A desumanização da população negra, indiferença e indignação seletiva da sociedade são aval para a violência. Dar as costas para o que está acontecendo diariamente é o que você tem a ver com isso.

 

LEIA TAMBÉM:
Me ver pobre, preso, ou morto já é cultural.

O país está menos desigual?

 

REFERENCIAS

Isildinha B. Nogueira. O corpo da mulher negra. 

*Imagem em destaque: Foto Marcelo Aguilar (Jornal uruguaio de lutas Brecha Semanariovia página Mães de Maio.

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