É tempo de falarmos de nós mesmas!

É tempo de falarmos de nós mesmas!

Colaboração por Taina Aparecida Silva Santos
Escreva, preta!

Se temos a intenção de falar sobre o lugar da mulher negra brasileira, é importante demarcarmos dois lugares enquanto pano de fundo ou fatores fundamentais para o entendimento desse tipo de narrativa. O primeiro é o lugar da história das mulheres negras que é atrelada à história da América Latina e do Caribe por motivos óbvios: a imigração forçada de negras e negros para serem escravizados nas Américas. O segundo é que, reconhecidas as mazelas, a violência da escravidão e as heranças oriundas desse processo, o lugar da vítima não deve ser tomado enquanto dado ou um tipo de largada para pensar a trajetória de mulheres negras. O problema do racismo, da pobreza, do machismo, homofobia, entre outros presentes na formação social brasileira, devem ser enxergados em termos políticos para que possamos encontrar soluções mais efetivas e menos caridosas, exotificantes e desumanizantes. Sentir dó de nós, nunca ajudou nem resolveu os nossos problemas.

Dito isso, passo a expor minhas reflexões e agradeço a todas as mulheres negras que me ensinaram e me ensinam que o meu lugar pode ser onde eu quiser.

Falar de mulheres negras, na minha humilde opinião, não se resume à apresentação das grandes feministas negras que questionaram, afrontraram e contribuíram para o questionamento de uma ideia universal de mulher apresentada por um feminismo branco, burguês e/ou elistista. Também, não é meu objetivo, para essa exposição, me dedicar exclusivamente à contribuição que mulheres negras como Beatriz Nascimento, que me inspirou muito enquanto organizava essa reflexão, Lélia González, Sueli Carneiro, entre muitas outras que foram fundamentais para minha formação e de muitas outras mulheres pretas.

Eu gostaria de tentar fazer o exercício de refletir sobre a experiência de mulheres negras de toda a diáspora africana nas Américas que, mesmo sem se identificarem  enquanto “feministas”, exerceram papéis políticos fundamentais na vida pública e na vida privada, nas suas comunidades e nas suas famílias, como é o caso, por exemplo da minha mãe, ou da tia de alguém, da avó que resistiu com afinco, dentro dos seus lares, dos seus trabalhos e das escolas, quando possível acessá-las, ao racismo, classismo, sexismo e heterossexismo. Apenas gostaria de que as minhas próximas palavras pudessem suscitar pelo menos curiosidades em entender essas experiências que muitas vezes são desconsideradas no movimento de pensar o lugar e a luta das mulheres negras afro-latinas. São coisas simples que não são novas e até meio óbvias, mas precisam ser faladas.

Posso, tranquilamente, falar de mulheres que são símbolo desses enfrentamentos, porém, com todo respeito à minhas ancestrais e por respeito à trajetória delas, acho que tratar as suas passagens pelo mundo enquanto simbólicas e exepcionais, não abarca e nem ajuda muito a entender a complexidade do universo CONCRETO chamado mulheres negras. Foram muitas, feministas ou não, que desafiaram o legado da escravidão, a misogenia anti-negra e a violência. Foram muitas as que arrombaram as portas para ocuparmos espaços que nos foram negados e passássemos a sermos sujeitas de nossas narrativas. Sendo assim, para conseguir, pelo menos, anunciar um caminho para que nós possamos entendermos esse universo concreto é necessário que entendamos essas mulheres como pessoas e não personagens de realidades anunciadas por modelos explicativos de “consciência” racial, de classe, de gênero, de sexualidade que muitas vezes nos é associado e naturalizado a partir de concepções mecanicistas.

Foram mulheres comuns que lutaram, lutam e contribuem para a vida de suas famílias e comunidades com ações que extrapolam interesses individuais, promovendo veículos fundamentais para transformação das oportunidades da população negra. Isso não é de hoje e, não necessariamente, essas mulheres estão em espaços denominados feministas. Os esforços para o letramento das crianças negras, para que seus filhos não abandonem as escolas, as chefes de família, mães solteiras que não se submetem à violência e ao abuso sexual… Todas essas posturas se inscrevem numa forma, digamos que, radical de enfrentar o patriarcado, a pobreza, o racismo, o sexismo e etc. Além disso, essas posturas desafiam o individualismo, já que, além de ter como horizonte o benefício de uma comunidade, são capazes de ampliar tanto a pauta do movimentos de mulheres, como do movimento negro.

Ao meu ver, esse tipo de vivência é a chave para entendermos a experiência das mulheres negras e o lugar que elas têm reivindicado para si, enquanto sujeitos políticos, enquanto cidadãs que querem que os direitos se efetivem para si,  para suas famílias e para suas comunidades. Então, a partir daí podemos pensar em coisas como Feminismos Negros que também estejam inscritos e informados por essas forma de ser e estar no mundo. Uma característica de uma articulação diaspórica e um espaço político negro de libertação. Não esqueçamos que o feminismo, enquanto teoria, não é um dado da história da humanidade. Quando o termo “feminismo” foi criado, muitas mulheres, brancas ou negras, já existiam e resistiam.

Levado tudo isso em consideração que ai cabe pensar o lugar que ocupa hoje a mulher negra na sociedade brasileira. É óbvio que a articulação do racismo com o sexismo provoca uma violência absurda contra a mulher negra, quando junta com homofobia e/ ou transfobia, nem se fala!  Somos violentadas pelo mito da democracia racial, que invisibiliza a história real desse país. A passividade da pregada “mistura de raças” silencia a violência sobre os nossos corpos que foram violados por senhores de escravos que já contribuíam para construção de uma prática que hoje chamamos de cultura do estupro. Ora, perceber isso, é um passo no longo e árduo caminho da luta anti-racista. É um passo no autoconhecimento de nós mesmas, de nós mesmos – tanto para o negro como para o branco. Ressalto esse ponto pois, como já anunciava Fanon, Du Bois, Cruz de Souza, entre muitas outras e outros que registraram seus pensamentos, em relação às pancadas que sofre uma vida negra, os brancos criaram uma confusão com os negros, como bem articulou Lélia González, de maneira que mecanismos de ocultamento traria ao grupo da supremacia certos benefícios: tanto no que diz respeito à exaltação de si quanto ao lado da desqualificação do outro.

No exercício de executar essa supremacia branca e obter certos benefícios com esse tal de ocultamento, seguiu-se um caminho de negações sequenciadas da humanidade negra que, além de contribuir para criação de mitos, como o da democracia racial, foi fundamental para que os sujeitos brancos criassem uma ficção sobre si mesmos: de superioridade, de universalidade, de razão. Pensar numa superação das práticas racistas e machistas é nos colocarmos a disposição para trilhar um longo caminho no sentido contrário a toda essa ficção que foi criada até aqui. Um caminho espinhoso, que não vai ser tranquilo, pois, em muitos momentos, muitas das coisas que fomos convencidas de que são “valores” vão ter que ir pelo ralo, principalmente, pelo fato do machismo, do racismo, entre outras opressões estarem inscritas nos nossos hábitos e na cultura hegemônica.

Sendo assim, passou da hora de falarmos de nós mesmas, de nós mesmos e isso incomoda, principalmente no que tange a percepção de alguns lugares tanto de privilégio quanto de subordinação. Não se limita a entender apenas o lugar da mulher negra na sociedade, mas sim os nossos lugares, pois, por mais que a racialização tenha se constituído sobre os sujeitos negros, brancas e brancos não são transparentes ou sem cor. Daí podemos pensar o lugar que ocupamos na sociedade brasileira em detrimento de outros lugares ultrapassando a exotização e objetificação dos corpos negros feitas por terceiros. Nós mulheres negras, somos humanas, logo, temos o direito de sermos sujeitos das nossas decisões, das nossas vidas e das nossas histórias.

Finalizo por aqui com algumas palavras de Beatriz Nascimento:

“O escravo negro, assim como o negro atual, não só participou da formação social do Brasil com seu trabalho, com seu sofrimento, participou também da mesa, da cama, do pensamento e das lutas políticas do colonizador e de seus descendentes. Para todo o lado que o branco olhar, deparar-se à com o espectro daquele que escravizou e que corrompeu. É justamente o fato de nos ter corrompido que maltrata as consciências salvadoras de muitos dos nossos “defensores”, daqueles que atualmente nos querem redimir estudando-nos através dos aspectos sócio-econômicos e apressando-se em se “sentir” negros, como se séculos de sofrimento e marginalização pudessem ser redimidos por uma sensação de “ser negro”. Ser negro é enfrentar uma história de quase quinhentos anos de resistência à dor, ao sofrimento físico e moral, à sensação de não existir, a prática de ainda não pertencer a uma sociedade na qual consagrou tudo o que possuía, oferecendo ainda hoje o resto de si mesmo. Ser negro não pode ser resumido a um “estado de espírito”, a “alma branca ou negra”, a aspectos de comportamento que determinados brancos elegeram como sendo de negro e assim adotá-los como seus.”


BIBLIOGRAFIA E REFERÊNCIAS

GONZÁLEZ, Lélia. Racismo e sexismo na cultura brasileira.
SMITH, Christen. Lembrando Beatriz Nascimento: quilombos, memórias e imagens negras radicais.
CHALHOUB, Sidney; PINTO, Ana Flávia Magalhães. “Asédio do mundo”: (à guisa de apresentação).
WERNECK, Jurema. Of Ialodês and Feminists: Reflexions on Black Wome’s Politican Action in Latin America and the Caribbean.
Na Imagem em destaque: Beatriz Nascimento. Intelectual, pesquisadora e ativista.


 

Taina Aparecida Silva Santos é militante do Movimento Negro e do Movimento de Mulheres Negras de Campinas  e estudante de História no IFCH/ Unicamp.

 

 

Leia também: Mulheres negras em Campinas, resistência que vem de longe.

 


 

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