Mulheres negras em Campinas, resistência que vem de longe.

Mulheres negras em Campinas, resistência que vem de longe.

texto por Luana Protazio

 

Campinas, interior de São Paulo, foi uma das últimas cidades da América a abolir a escravidão, e após, seguiu-se um longo período de racismo explícito manifestado desde placas no cinema que não permitiam a entrada de “pessoas de cor” até a interdição do direito de ir e vir de negros e negras. Foram muitos os estabelecimentos comerciais que não atendiam negros, nem os contratavam para trabalhar – “vagas de trabalhos para brancos” –  pessoas expulsas, corpos negros espancados pelas ruas da cidade entre outras violências que foram denunciados pela imprensa negra da época. “Não é de estranhar que tentativas de exclusão desse tipo, que tendiam a criar um limite inegociável entre um “Nós” e um “eles”, despertasse uma contra-reação coletiva.” (HOFBAUER, 2007, p. 345). Essa contra-reação veio na necessidade da população negra de criar estratégias de organização, resistência e conscientização na cidade.

Hoje é feito um trabalho de resgate de memórias que faz com que a resistência negra tenha continuidade, apesar de não vermos a segregação no sentido explicito como antes, sabemos que a democracia racial é um mito e há muito ainda pelo que lutar. Dito isso, venho falar sobre o protagonismo de mulheres negras em Campinas, resultado de lutas anteriores de nossas ancestrais. Na história de Campinas existiram muitas Laudelinas de Campos Mello, por exemplo, que participou da Frente Negra e fundou, em 1936, junto com outras mulheres pretas, a primeira Associação de Empregadas Domésticas no Brasil.

Atualmente, muitas mulheres de luta da cidade integram a Frente de Mulheres Negras de Campinas e região, um coletivo que surgiu em meio à discussões acerca da Marcha das Mulheres Negras de Brasília, em 2015, e atua na defesa dos direitos das mulheres, da população negra, contra o racismo, o heterossexismo e a violência.

Taina Aparecida Silva Santos atua na Frente de Mulheres Negras, no Coletivo Lélia Gonzales e também faz parte do Núcleo de Consciência Negra da Unicamp. Ela nos falou um pouco sobre e a importância dessa Frente na cidade.

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Taina lembra que historicamente as mulheres negras sempre se organizaram para debater algumas questões dentro do movimento negro. Ela ressalta que, nos tempos da escravidão havia comunidades de mulheres negras que faziam resistência frente às mazelas apresentadas, criando mecanismos de resistência à violência sexual dos senhores, por exemplo. Num exemplo mais recente, tivemos Lélia Gonzalez que levantava a questão de gênero por uma perspectiva racial. “Temos também, nos anos 80, o lançamento do livro A Cor Púrpura de Alice Walker que alia questões de raça e gênero, em meio ao auge das discussões raciais nos anos 70 e 80, nos lembrando que mesmo sendo um setor oprimido não podemos deixar de fazer a reflexão de que isso não nos isenta de exprimir certos tipos de opressão dentro da comunidade negra“. Ainda assim, em sua opinião, existe uma parte do movimento negro que tem dificuldades para lidar com certas questões: “Em alguns momentos não somos consideradas nem do movimento negro nem do movimento feminista. Algumas pessoas ainda têm problema em reconhecer que a superação do racismo, passa pela combate à violência da qual as mulheres negras são alvo. Também é recorrente nos espaços de feministas brancas, nós, mulheres negras, não sermos consideradas enquanto feministas”. A militante complementa: “se colocar nesse campo de militância feminista negra é trazer a tona essas questões que precisam deixar de serem tratadas enquanto tabu e secundarizadas dentro dos movimentos sociais, de maneira geral”.

Em contrapartida, a Frente de Mulheres Negras de Campinas e região, por ser composta por mulheres de vários coletivos com experiências de militância e organização diferenciadas, abrange diversas gerações, vivências e principalmente perspectivas. Essa variação de percepção abre um leque de novas possibilidades que intensifica o crescimento tanto coletivo quanto individual das integrantes, de forma que interssecciona as vivências dessas mulheres atuantes nos coletivos negros da cidade. Para Taina, a experiência de troca permite a difusão de conhecimento e amadurecimento da luta. “Como a nossa história [mulheres negras] não é contada de maneira honesta pelos veículos oficiais de comunicação e de informação, essa troca de conhecimento é também uma forma de fazer pensar na nossa trajetória, levando em conta as experiências de outras mulheres negras.” Ela afirma que a Frente é um universo de mulheres, que são diferentes em termos identidade de gênero, sexualidade, entre outras particularidades: “mulher negra não é um molde pronto ou uma coisa única, e temos que entender a nossa complexidade.

As redes sociais se tornarão um espaço de debate, de militância, e de manifestações. Inclusive manifestações racistas que precisam ser combatidas, e para combate-las é necessário que estejamos inseridas nesse espaço e o façamos também um espaço de formação e diálogo com a juventude. O canal de vídeos da Frente de Mulheres Negras de Campinas no youtube foi pensado nesse sentido. “Não podemos esquecer que vivemos num país que a pobreza ainda é latente e não é todo mundo que tem acesso a internet toda hora, mas nos últimos anos houve uma ampliação de acesso que não podemos deixar de lado no sentido de ignorar esse campo de atuação.” afirma.

Por que Marchamos? Por Magali Mendes, via Canal no YouTube.

Na semana de 25 de Julho, Dia da Mulher Negra LatinoAmericana e Caribenha, a Frente de Mulheres Negras completou 1 ano.  Para celebrar, durante a semana foram realizados cine-debates, rodas de conversa, multirão de graffiti feminino, o lançamento do documentário EM MARCHA SEMPRE! que trás as percepções das mulheres negras da Frente, que participaram da 1ª Marcha Nacional de Mulheres Negras. No encerramento da semana, foi realizado um ato de Femenagem às mulheres negras maiores de 60 anos por suas histórias de vida no Sarau das Aliadas.

Confira como foi a programação de 1 ano e acompanhe outros projetos na página Frente de Mulheres Negras de Campinas.

REFERENCIAS E PARA SABER MAIS

HOFBAUER, Andreas. Uma história de branqueamento ou o negro em questão. 2007.

Conheça Laudelina de Campos Melo no site Criola.org, clicando aqui.

Canal Frente de Mulheres Negras de Campinas e Região no YouTube, aqui.

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