Nós, contando o outro lado da história.

Nós, contando o outro lado da história.

texto por Luana Protazio

 

“Todo comunicador periférico é um transformador por si só” assim começou meu bate-papo com essa preta incrível, durante a Semana do Hip Hop de Bauru. Nerie Bento é formada em jornalismo, integrante da Frente Nacional de Mulheres no Hip Hop – um coletivo de Mulheres no Hip Hop do Brasil que busca disseminar a cultura e discutir questões de gênero e sexualidade, e proprietária da Black Indie – Assessoria de Imprensa, trabalhando com algo inovador: assessoria de imprensa no hip hop. “É um desafio porque existem poucas mulheres assessoras de imprensa dentro do hip hop, sobretudo negras, e a assessoria nesse campo é uma coisa inovadora, ainda não é um costume de muito uso.” afirma. Nerie é também entusiasta da comunicação como ferramenta de transformação, conversamos um pouco sobre mídia preta e periférica e sua importância.

“Históricamente temos uma mídia branca, e de direita” ressalta. De fato, os principais conglomerados de comunicação no Brasil estão nas mãos de poucas famílias, como mostrou uma pesquisa realizada em 2002 sobre os meios de comunicação no Brasil, intitulado Os donos da Mídia, e portanto à serviço de ideais conservadores e elitistas, “Hoje a mídia negra é fundamental, por trazer pautas e debates com recorte especifico que nas mídias tradicionais não vamos ter, ou teremos de forma distorcida”, um exemplo citado são as manchetes com títulos pretensiosos e racistas que encontramos com frequência na mídia tradicional,

“Jovem de classe média é preso por suspeita de tráfico internacional de drogas no Rio”
quando o infrator é branco, classe média.

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“Polícia prende traficante com 10 kg de maconha em Fortaleza”
quando o mesmo é negro, pobre. (Ambos do portal G1 de notícias.)

São exemplos de como o racismo opera na linguagem midiática, mais uma forma de valida-lo no imaginário social, alimentar discursos que promovem ódio, e justificar praticas e atitudes racistas, como até mesmo o genocídio, à sociedade.

Um ponto muito discutido nesse aspecto é a importância da democratização dos meios de comunicação, que frente à este cenário se faz cada vez mais necessária. Os meios de comunicação tradicionais não refletem a pluraridade e diversidade do país, muito pelo contrário, estes reforçam interesses hegemônicos, e falham no compromisso com a população na difusão de informações, além de ferir com o §5º, art. 220 da Constituição vigente de 1988 que diz que “os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio.”. Ainda assim, é um desafio movimentar essa discussão de forma efetiva, considerando que vêm de uma estrutura histórica, e quem detém o chamado quarto poder com certeza não abre mão.

Neste cenário, a internet se torna campo para o desenvolvimento e busca de uma mídia mais democrática, na medida do possível, “Então temos negros gerando conteúdo, se formando e se especializando nessas áreas, e isso é de extrema importância porque é como Chimamanda Adichie costuma dizer, somos nós contando o outro lado da história.
E isto não é novidade, desde o primeiro periódico negro, ‘O Mulato’, de 1833, até os portais digitais atuais, a imprensa negra conta o outro lado da história, aborda questões que interferem no cotidiano da população negra, e denunciam praticas racistas, mesmo com tentativas de silenciamento e a concentração dos meios de comunicação como empecilho.

Nos últimos tempos, vimos um aumento de profissionais negros nessa área, Nerie acredita que as cotas raciais e sociais tiveram um papel importante nisso, “As cotas permitiram que mais negros adentrassem as faculdades, e, consequentemente, tivessem acesso à esses espaços que antes eram negados à nós.” Hoje, são vários os portais com conteúdo excelente e de qualidade, e principalmente, trazendo um recorte especifico, não só pautado nas mazelas da população negra, mas também em nossas narrativas, produções, criações, conquistas, “o objetivo é trazer os pensadores negros que estão no role, as mulheres negras que estão fazendo acontecer, os movimentos culturais negros que estão rolando, entre outras coisas.”

Como Nerie afirma com um sorriso no rosto, precisamos celebrar esses produtores de conteúdo e portais que usam a comunicação como mediação. Podemos citar Geledés – Instituto da Mulher Negra, uma organização política de mulheres negras que tem por missão institucional a luta contra o racismo e o sexismo, a valorização e promoção das mulheres negras, em particular, e da comunidade negra em geral; Alma Preta, que faz um trabalho jornalistico incrível, e recentemente inaugurou um sistema de assinaturas para desenvolver e ampliar este trabalho; Nós, mulheres da periferia que propõe reduzir esse espaço vazio existente na imprensa e a falta de representatividade, aliada à gênero, raça e classe; Blogueiras Negras, comunidade de mulheres comprometidas com gênero e raça com textos de caráter informativo; Levante Negro, coletivo negro de combate a opressão aliado à consciência de classe; e muitos outros. A mídia preta é uma forte ferramenta de emancipação do povo negro.

 

REFERÊNCIAS E PARA SABER MAIS

Conheça a página Frente Nacional Mulheres no Hip Hop – BR no facebook.

Acesse o Portal Mulheres no Hip Hop clicando aqui.

Fortaleça Black Indie – Assessoria de Imprensa no facebook.

Assista Chimamanda Adichie: o perigo de uma única história.

Leia “É necessário pensar a comunicação como possibilidade” no site Versátil RP.

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