Nossa beleza: Uma saga cheia de espinhos

Nossa beleza: Uma saga cheia de espinhos

 

Colaboração por Ketty Valencio
Escreva, preta!

 

Durante muito tempo e confesso que ainda hoje eu procuro por ela. Olho-me no espelho e às vezes prefiro não ver o que vejo. Bem piegas isso, né? Mas é o resultado de tantos bombardeios que sofremos diariamente de milhares de matérias jornalísticas, propagandas, novelas e outros meios de comunicação que tem determinado o nosso comportamento, estilos, centímetros e etnia para conseguir ilusoriamente a vida dos sonhos e de ser “alguém” para esta sociedade capitalista.

Normalmente somos idealizadas por nossos pais antes mesmo de nascermos, o modelo já está lá pré-determinado. Na infância, somos engolidas com as limitações dos papéis sociais de gênero, que são fundamentadas nos padrões de beleza. Na escola esta situação piora, pois lá é quase uma cidade paralela que funciona como um espelho convexo da sociedade real para as diferenças. Neste mesmo lugar, geralmente somos convencidas em acreditar em uma única história, baseada em uma cultura eurocêntrica, com padrões de beleza e estética embebidas de uma mitologia grega.

Um grande exemplo recente foi o que aconteceu na olimpíada de 2016, no Rio de Janeiro. Um caso lastimável com a ginasta do México, Alexa Moreno, mesmo esta modalidade esportiva não sendo tradição no seu país, ela conseguiu um bom ranking para o México, porém o que chamou atenção não foi o seu desempenho e sim seu corpo, alvo de muitas ofensas nas redes sociais.

Tudo isso é tóxico para todas nós mulheres, além de ter seu papel inferiorizado de gênero, com direito a jornadas duplas e às vezes até triplas de trabalho, sem possibilidade de libido da vida sexual, e ainda por cima tem que estar sempre bela. O fardo é grande para as mulheres, mas principalmente para as mulheres pretas. Eu como mulher preta sempre me senti estrangeira na maioria dos lugares onde estava e não compreendia isso, achava que o problema era eu. Sempre fui muito tímida, falava baixo, sentava no fundo da sala e sem espontaneidade. Sentia calafrios quando alguém na sala de aula mencionava meu nome e me notava, pois fui educada para não chamar atenção, a invisibilidade era minha aliada, eu acreditava que assim blindaria os algozes do preconceito, só que não.

Atualmente me deparo com relatos de crianças e adolescentes que são hostilizadas na escola por assumirem seu cabelo crespo e sua negritude, crianças que não são chamadas para participarem de danças ou ações educativas por não terem a pigmentação de pele, cabelos, feições faciais e corporais dentro dos padrões estabelecidos de uma sociedade impiedosa, mulheres pretas objetificadas e normalmente não sendo assumidas como companheiras em um relacionamento amoroso. Outro ponto disto, é o quanto mais retinta a pele da mulher, menos atraente ela será para a opinião pública. Em alguns países da África, na Jamaica e nos EUA. ocorreram um aumento de consumo de cremes clareadores para a pele, ou seja, para muitas mulheres clarear a pele é sinônimo de ser bonita, de ter a tal famosa boa aparência que o sistema prega tanto.

Esta situação me remete a duas recordações, a primeira é sobre o livro do FANON (2008), “Pele negra, Mascaras brancas”, em uma parte ele diz que de todos os lados o negro é invisível ou específico e o homem branco fica na universalidade, assim o negro quer embranquecer e o branco é o modelo de ser humano. A segunda é sobre as mulheres na década passada que não gostavam de tomar sol, pois a pele branca representava a aristocracia e a pele mais escura, a queimada, era o trabalho.

Observo que o presente está repetindo o passado, e isso é nítido, a minha mãe possui quase as mesmas experiências e insatisfações que eu tenho e outras mulheres de gerações anteriores da dela também, isso quer dizer, quase nada mudou. Quantas mulheres se suicidam e se mutilam por isso? Quantas entram e entraram em relacionamentos abusivos? Quantas estão ou estiveram em depressão? É perceptível como é difícil ser quem realmente somos.

Esta semana ouvi um depoimento de uma pessoa que dizia que a indústria da moda não investia em mais modelos pretas para vendas de roupas, pois as roupas usadas por essas modelos normalmente são as que dão o pior lucro, e estas peças não vendem. Uma realidade e argumento horrível de ser mencionado, tanto que esta pessoa, uma mulher preta, ficou extremamente emocionada quando disse, e foi visível seu sofrimento em relatar esta notícia.

Lendo o livro “Beleza Real” da Negahamburguer, fiquei muito sensibilizada com os desabafos, e provavelmente qualquer leitora perceberá que em cada texto há uma ação de cura, uma elevação da autoestima.  Por isso abaixo destaco o relato de uma anônima que participa deste importante projeto, ela consegue resumir muito bem os danos causados da busca incessante da beleza perfeita.

“Sou uma garota que graças a tantas situações como essas, já perdeu mais de metade de seus sonhos. Sou uma menina que não acredita que mereça, um dia ser amada. Me vejo da mesma forma como eles me veem e me odeio a cada instante. Mesmo as brincadeiras de amigos que sei que não fazem por mal, pesam em minha alma e contribuem para minha solitária depressão. Me sinto horrível, desamparada, alguém que não deveria existir, incapaz de enxergar qualidades em meu reflexo.”

 

Com estas armadilhas da sociedade que limita o nosso eu, nós nos escondemos do mundo, desperdiçamos a vida e o tempo, que infelizmente não voltam mais. Além de ficarmos cada vez mais fragilizadas, alheias, como um ser com facilidade de manipulação.

A beleza perfeita é uma ilusão que aprisiona e também pode ser um grande instrumento politico que temos que exterminar através da quebra desses paradigmas. Saiba que nesta guerra nós mulheres não estamos sozinhas, essa luta diária é coletiva, vamos nos amar e espalhar este sentimento por aí e também exigir cada vez mais que coloquem nas propagandas, capas de revistas e meios de comunicação em geral, pessoas reais, mulheres reais, de belezas reais; mulheres negras, mulheres trans, mulheres deficientes, mulheres gordas, mulheres com vitiligo e todas as mulheres e pessoas com belezas plurais. A representatividade com qualidade importa sim, ela vale ressignificações de vidas e a chance da possibilidade de uma nova história.

 

 

 

Ketty Valencio “menina mulher da pele preta’. Nascida e criada em alguma periferia qualquer de Sampa. Bibliotecária, livreira e como hobby, tem a mania de sorrir a toa. Atualmente é proprietária da Livraria Africanidades.

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