O Brasil está menos desigual?

O Brasil está menos desigual?

Pesquisa do IPEA mostra que, apesar de avanços na educação por exemplo, país mantém desigualdades históricas na sociedade

Colaboração por Ana Carolina Moraes

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, IPEA, lançou a pesquisa Retratos das Desigualdade de Gênero e Raça entre 1995 e 2015 no começo de março. A pesquisa foi produzida em parceria com a ONU Mulheres, com o objetivo de trazer dados sobre a vida social dos brasileiros, com recorte de gênero e raça. Por isso, o estudo aborda as desigualdades na família, mercado de trabalho, trabalho doméstico, renda e uso do tempo. Os dados mostram que muita coisa mudou; mas as diferenças entre homens e mulheres, brancos e pretos continua, tal como nos anos de 1990.

Para entender como é que está o Brasil depois de 20 anos, segundo a pesquisa, este texto está baseado nos indicadores de educação, mercado de trabalho, trabalho doméstico remunerado e renda. Isso porque são temas que podem modificar sociedade e assegurar melhor qualidade de vida para as pessoas. O estudo completo e mais informações sobre a pesquisa podem ser consultadas aqui.

Educação

De maneira geral, mais pessoas tiveram acesso à educação no período. A taxa de analfabetismo da população com mais de 15 anos caiu aproximadamente 7%, e a redução foi significativa quanta à raça. Dos homens negros, por exemplo, 23,8% eram analfabetos em 1995; hoje são 11,1% – o maior índice. Já entre os homens brancos, a taxa era de 8,8% em 1995 e 4,9% em 2015.

As pessoas também passaram a estudar por mais tempo. A população masculina de 9 a 11 anos de educação cresceu 15,5%. As mulheres passaram a ter mais presença no ensino superior: se 1995, 8,6% delas tinha mais de 12 anos de educação, em 2015, esse número passou a ser 20,2%, ultrapassando o índice dos homens neste ano, que foi de 16,7%.

A educação também se tornou mais acessível para a população negra. Em 1995, apenas 10,9% das pessoas pretas tinham de 9 a 11 anos de estudos, terminavam o ensino fundamental e médio, por exemplo; em 2015, 29,2%. No ensino superior (12 anos ou mais de estudo) os números também são positivos: de 3,3% em 1995 para 12% em 2015.

Mesmo com o crescimento de 9%, a população preta ocupa nas universidades hoje o que os brancos representavam no ano em que a pesquisa começou.

(Infográfico – Educação – https://infogr.am/educacao-50324201)

 

20 anos depois, as mulheres negras passaram a ter, em média, 2,5% a mais; os homens negros, 3,1%. A média da população brasileira cresceu 1,6%.

Mercado de trabalho e trabalho doméstico remunerado

Os reflexos do acesso à educação não estão no mercado de trabalho. A taxa participação de pessoas com de 16 anos ou mais caiu de quase 65% para aproximadamente 63% em 2015. As mulheres, parcela com maior acesso à educação no período, nunca chegou a ser 60% nestes 20 anos. Para as mulheres negras, a realidade foi pouco mais inclusiva: a taxa de participação do grupo passou de 53,8% em 1995 para 55,3% em 2015. Os homens sempre estiveram acima da média: 86,2% participavam do mercado em 1995 e, em 2015, 78,3%.

A população masculina passou ocupar mais as ocupações públicas/ militares e os empregos com carteiras assinadas neste período. É verdade que as mulheres também. Mas a quantidade de mulheres empregadas com carteira assinada hoje (36% em 2015) é quase a mesma dos homens em 1995 (34,1%). No recorte de raça, as desigualdades até que diminuíram, mas não muito: 42,4% da população branca trabalha com carteira assinada; para a população preta, a taxa é de 36,1%.

É no trabalho doméstico remunerado que as desigualdades de raça se destacam. A pesquisa traz que, mesmo com queda, a quantidade de trabalhadoras domésticas negras é maior que a das brancas. Em 2015, 18% eram negras contra 10,3% das brancas. E a maior parte está com idade ativa, entre 30 e 60 anos. E quase 60% delas trabalham sem carteira assinada.

Sobre quanto ganham, o cenário também não é muito animador: as mulheres pretas continuam ganhando menos, mesmo trabalhando mais. Em 1995, essa diferença não era tanta – a empregada doméstica branca recebia, em média, R$ 491,80; a preta, R$ 417,80. Já em 2015, o rendimento mensal da trabalhadora doméstica branca era de R$ 824,40; a negra ganhava 15,8% a menos, R$ 694,10. Além disso, as mulheres negras que trabalham em mais de um domicílio em 2015 recebiam menos que as brancas que trabalham em apenas uma casa.

(Infográfico – Trabalho doméstico – https://infogr.am/trabalho_domestitco )

 

Renda

O que não mudou no período da pesquisa foi hierarquia por gênero e raça quanto aos rendimentos. Homens branco continuam recebendo os salários mais altos, com rendimento médio mensal de R$ 2.509,70. As mulheres brancas têm rendimentos de cerca de R$ 1.700; homens negros, quase R$ 1.500. Mulheres negras, R$ 1.027,50.

O cenário praticamente se inverte quando o assunto é a proporção da população com mais de 16 anos sem renda própria. As mulheres negras representam 27,3 da população sem renda própria, cerca de 47,61% da proporção dos homens brancos,que é de 14,3.

O que a pesquisa diz sobre o Brasil

Os dados ajudam a entender a dinâmica brasileira nos últimos 20 anos. Depois de 20 anos, o que se percebe é que o Brasil não está menos desigual. Os avanços são em relação às condições de 1995 porque as hierarquias ainda são as mesmas.

Pouco foi feito para a inclusão e melhoria da condição de vida da população negra pelos governos. Exceto na educação, em que é possível observar um avanço com relação ao ingresso de jovens pretos no ensino superior, e que, no período, contou com uma política pública de inclusão – as ações afirmativas.

O mercado de trabalho ainda emprega pouco e não emprega bem as mulheres. A pesquisa mostra que a participação feminina está congelada abaixo dos 60% desde 1995, que mesmo com avanços, elas ainda recebem menos que os homens, e que as principais ocupações são em empregos formais (com carteira assinada), cargos públicos e como trabalhadoras domésticas.

A estrutura social ainda tem o homem branco no topo e a mulher negra na base, com diferenças perversas quanto à educação, ocupações e rendimentos. As desvantagens e o atraso de 20 anos da população preta comparada à branca expõem a necessidade de políticas públicas como meio para superar efetivamente as desigualdades no país.

 

 

Escreva, preta!

Ana Carolina é jornalistinha por vocação e mulher preta por essência. Não é daqui nem de lá, por isso vive procurando seu lugar no mundo, enquanto luta contra os preconceitos de raça, de gênero e de classe.

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