Para além da solidão, marcas do preterimento

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Por Luana Protazio

Como já disse por aquio racismo opera em múltiplos campos de nossa vida, muitos desses tão subjetivos que demoramos a entender que a culpa da situação não é nossa. Neste texto quero refletir sobre o racismo no campo afetivo outra vez, mais precisamente sobre as marcas do preterimento em nossas vidas.

Quando falamos da solidão da mulher negra, estamos falando de toda uma estrutura que impõe à mulher negra em todas as fases da vida os sintomas da solidão. São em termos familiares quando muitas vezes se é alvo da ausência paterna ou se é a mãe solteira, em situações instáveis. São os laços de amizade ou a inexistência destes, a solidão no mundo acadêmico ou mercado de trabalho onde tendemos a estar cada vez mais sós conforme passamos a exercer funções de maior prestígio. É na violência obstétrica, na violência Estatal constante, nas violências simbólicas que ninguém vê. No silenciamento que nos sufoca, a sensação de não ser bem-vinda, se sentir à todo momento deslocada e na permanência em situações abusivas para não ficarmos sozinhas, como também na falta de representação positiva na mídia, na exclusão e rejeição desde a infância e em toda uma vida de preterimento.

O senso comum vê a mulher negra de duas formas: mulher para o trabalho árduo e servil – seja como doméstica, faxineira, e cargos de pouca valorização social – ou como uma mulher quente, fogosa, e sensual. bell hooks aborda isso muito bem com o termo corpo sem mente, ela explica que “para justificar a exploração masculina branca e o estupro das negras durante a escravidão, a cultura branca teve de produzir uma iconografia de corpos de negras que insistia em representá-las como altamente dotadas de sexo, a perfeita encarnação de um erotismo primitivo e desenfreado. Essas representações incutiram na consciência de todos a ideia de que as negras eram só corpo sem mente.” (HOOKS, 1995)

Este estigma sobre nossos corpos é mantido e perpetuado pelos mais diversos meios de comunicação. A mídia, ao insistir representar a mulher negra apenas como um corpo dotado de alto apetite sexual, promíscuo, bom de cama, e relegado à ser amante, interfere diretamente na forma como se relacionam com nós e nos relacionamos com os outros.

“Em nosso imaginário cultural, as características raciais e fenotípicas da mulher negra – considerando a cor da pele, as características do cabelo, a estética – estão o tempo todo associadas a estereótipos negativos. Essas representações estão vinculadas não apenas ao imaginário social mais geral, mas também ao imaginário acadêmico, literário. Na música, nas imagens socialmente produzidas, o que sempre se destacou são essas características, relacionadas a um comportamento sexualizado, quase que servil – e isso é a reprodução de uma concepção bem colonial, quase que a imagem reproduzida da mulher escravizada, que estaria, portanto, para servir ao outro, ao senhor. E a outra representação é a do trabalho, de como a mulher negra seria ‘pau para toda obra’, seria boa para o trabalho servil e doméstico, e não seria uma mulher com desejos, com possibilidades de construir uma afetividade, de ter projetos pessoais, familiares, de uma mulher que tenha a capacidade de pensar.” (PACHECO, 2014. citado por ANJOS e ARRAES)

Essa estigmatização, fruto do racismo e sexismo, causa em nossas relações afetivo-sexuais o preterimento e rejeição. Nunca somos boas para apresentar e firmar compromisso, nunca somos às mulheres quais destinam o respeito, carinho e zelo. Somos as mulheres hiperssexualizadas, para uma noite, um beijo que ninguém precisa (ou seria “pode”?) ficar sabendo, as mulheres trocadas por mulheres mais aceitas pelo padrão eurocêntrico, isso quando chegamos à estar com alguém, pois, na outra ponta da objetificação está a invisibilidade. Muitas de nós sequer chega ao beijo que ninguém pode ficar saber porque estão à margem fisicamente desse corpo hiperssexualizado e ficam a merce do gosto pessoal, por isso para relações são como pessoas que não existem.

Não podemos esquecer que gosto pessoal é construído socialmente, “Na relação com o outro, o desejo de envolvimento afetivo em busca do prazer é permeado pelos valores e ideais estabelecidos pelo contexto social. A manifestação do desejo e o estabelecimento ou não de vínculos amorosos são também determinados por concepções advindas de uma visão machista e racista” (PINTO, citado por ANJOS e ARRAES). Aqui lembro que ambas as pontas são doloridas e nos desumanizam. Não há vantagem em ser vista como objeto assim como não há vantagem em nem sequer ser vista.

Esse preterimento e solidão afetiva com certeza deixam marcas, não é a toa que a mulher negra é mais propensa ao celibato definitivo, como apontou o Censo 2010, mesmo Censo que confirma que mais da metade das mulheres solteiras no Brasil são negras, e essas são as que menos se casam.

Não é à toa, também, que muitas de nós, e aqui me incluo, sentimos certo medo quando a possibilidade de uma relação saudável bate à nossa porta. As experiências já vividas nos lembram o quão dolorido relações podem ser para nós, surge a insegurança e o receio.

Em algum momento aceitamos relações que não chegam nem aos pés do que merecemos; relações abusivas, unilaterais, desproporcionais, onde saímos sempre machucadas. Em outro momento, o medo de mais feridas faz com que criemos uma defesa emocional que muito nos dificulta chegar no segundo capítulo de qualquer história.

Isso me entristece e me enfurece pois pensar que o racismo também limita nossa capacidade de ser afetiva à outras pessoas e, de tanto bater, pode tirar na marra nosso direito de sentir e receber o mesmo é de deixar qualquer uma de nós revoltadas com a estrutura racista, patriarcal e sexista que nos empurra historicamente à isso.

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imagem do filme “A cor Púrpura”

Uma vez comentei nas redes sociais que não gostava de escrever sem possíveis soluções, mesmo que no momento inviáveis, mas existentes, e de todos os assuntos que me perpassam como mulher negra, a solidão e o preterimento são presentes demais e eu não tinha perspectivas de soluções que dessem fim imediato à isto.

Hoje entendo que para aliviar as marcas do preterimento e mudar este cenário é necessário pensar outros caminhos para exercer nossa afetividade e desconstruir o conceito firmado de que não somos dignas e válidas da dimensão afetiva de forma saudável em nossas vidas. Precisamos pensar sobre nós e nossos afetos como algo essencial e também político, não só dor e luta por sobrevivência devem ser pautas em nossos diálogos.

Redescobrir nosso potencial de afeto através da expansão afetiva à outras pessoas negras.

Das minhas reflexões infindáveis sobre o tema, proponho esta: todos os dias lembrar que nós temos direito e merecemos a vida, cidadania, saúde física, mental e emocional, acesso à educação, trabalho e segurança para nosso povo, políticas públicas, perspectivas positivas, bem-estar, momentos bons e afeto. Muito afeto. O afeto também nos é de merecimento ainda que tenhamos aprendido a negligenciar este campo em nossas vidas. Lembrar que ele é tão importante quanto o todo é imprescindível e urgente.

Não queremos só sobreviver aos dias, estamos aqui e merecemos a vida e se permitir ao afeto faz parte de uma vida plena pois como ensinou bell hooks,para viver uma vida plena não podemos mais negar a necessidade de conhecer o amor.”

 

REFERÊNCIAS E BIBLIOGRAFIAS

bell hooks, Intelectuais negras. Disponível em periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/viewFile/16465/15035

Anna Beatriz Anjos e Jarid Arraes. A solidão tem cor. Revista Fórum. Disponível em revistaforum.com.br/semanal/a-solidao-tem-cor/

Ana Cláudia Lemos Pacheco. Mulher negra: afetividade e solidão (Edufba) 2014.

Elisabete Aparecida Pinto. Sexualidade na identidade da mulher negra a partir da diáspora africana: o caso do Brasil.  Tese de Doutorado, PUC/SP, 2004.

bell hooks, Vivendo de Amor. Disponível em geledes.org.br/vivendo-de-amor/#gs.rowxwtQ

 

***** Texto publicado originalmente em meados de 2016.

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