Poema: A cor do desespero

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Por Viviane de Paula

“Tenho a impressão que sou um objeto fora do uso, digno de estar num quarto de despejo” (JESUS, Carolina Maria)

15 de junho de 1988,
Sem anestesia ou piedade,
Nasceu a preta.

Olhos avelã,
Pele lustrosa,
Puseram no registro: negra.

Filha de Maria
A mineira, quitandeira do bairro,
Nasceu sem-pai.
(filha de um zé-ninguém)

Cabelos crespos e desgrenhados,
Lábios avermelhados,
Nasceu mais uma preta.

A retinta,
Feia e suja.
A preta foi pra escola

Não teve namorado,
Caso ou acaso,
Era preta,
Quem quer ficar com a preta?

Aos quatorze,
Passava e lavava,
“ – É quase da família”, dizia Dona Lurdes.

Reprovou o primeiro ano,
E depois mais um,
A preta foi chamada de burra.

Saía as seis de casa,
Voltava com a lua apontando no
Meio dos arranha-céus.

Aos dezesseis,
Enroscou-se com Fabiano, depois com Pedro.
Mas apaixonou-se mesmo por Joaquim,
(nenhum deles amou a preta)

A preta sentiu enjoos,
E o teste de farmácia confirmou:
No ventre de menina, uma luz nascera.

Chorou quatro noites seguidas,
Tomou coragem e ligou pro Joca:
“- Filho meu não é ”.

A preta foi pra cidade-grande,
Entregou as suas economias pro doutor:
Uma morte consentida.

Maca,
Agulha,
Gemidos.
Sem anestesia ou piedade.

(a luz se apagou)

Ninguém soube da preta.
Nem Joaquim, nem Fabiano,
Nem Dona Lurdes que era da família.

Caro leitor, não deixe seus pêsames.
Guarde o segredo desta menina:
A preta nasceu
E findou-se nesta poesia.

 

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autora do poema “A cor do desespero” no escreva, preta! Elogie Uma Irmã Negra

Viviane de Paula, Campinas-SP, 25 anos. Graduada em Letras pela PUC-Campinas. Apaixonada por música, drama e arte, atira as suas investidas poéticas sobre fatos corriqueiros e outros menos complexos. ​

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