Querida Farm e outras marcas, suas desculpas prontas não revertem os efeitos do racismo.

Querida Farm e outras marcas, suas desculpas prontas não revertem os efeitos do racismo.

Quando uma marca retrata pessoas negras em posições de subserviência, ela reforça no imaginário um lugar único para a população negra.

Por Luana Protazio

Recentemente, a adoroFarm publicou em seu instagram a nova peça à lá raciste da marca: uma blusa cujas mangas estampam palmeiras, casa grandes, e, hum, pessoas negras remetendo a escravidão.

Cá estamos nós de novo.

Com a manifestação de pessoas negras apontando o óbvio, entre eles o estilista e blogueiro Jota C Angelo que trouxe o caso à tona nas redes, a marca apagou a foto e disse por mensagem direta à alguns que retiraria a estampa das lojas, emendando o famoso “não foi esta nossa intenção” frase tão comum aos ouvidos de negras e negros ao apontarem racismo.


O problema dessa desculpa pronta é que ela serve para que ninguém precise assumir responsabilidade pelo fato, como a pesquisa preliminar divulgada em 2014, pelo Instituto Data Popular em que 92% dos entrevistados considerava o Brasil um país racista, porém, apenas 1,3%  se considerava racista. Onde estão os racistas? é o crime perfeito, e todos continuam confortáveis – exceto os negros.

Vem de outros carnavais…

Em 2014, essa mesma marca apresentou uma coleção de carnaval inspirada na cultura negra. Para a surpresa de ninguém, nas fotos divulgadas só haviam modelos brancas. Após muitos apontamentos de racismo e apropriação cultural, a marca divulgou um vídeo com modelos negras desfilando as peças da coleção e um texto na linha tradicional do “não era esta a nossa intenção”. Claro que não. Em 2016, foi a vez da MariaFiló reafirmar que a moda é racista e excludente. A blusa da marca estampava escravas negras servindo mulheres brancas, muito semelhante à nova da Farm. Rapidamente a tag #MariaFiloRacista se espalhou na redes sociais, e o texto veio “(…) Em nenhum momento tivemos a intenção de ofender.” Aaah, a falta de intenção novamente.

Estamos cansados.

Isso vem acontecendo não só na moda e não estamos nos calando, mas repetir sempre o óbvio cansa, não? Alegar ignorância do assunto é nos chamar de burros, estamos falando, escrevendo, desenhando, discutindo o assunto e até sendo muitas vezes didáticos, o que nem seria necessário pois é de responsabilidade de toda empresa a consciência da realidade histórica social e racial em que está inserida.

A moda também comunica, então quando uma marca retrata pessoas negras nessas posições o que ela está comunicando? Se a intenção não é fazer da nossa dor um hype racista então o que é? Estampas como essas reforçam no imaginário social um lugar único de submissão para a negra e o negro e a ideia de que a existência negra só é válida servindo pessoas brancas.

Estamos fartas de desculpas prontas que não revertem o dano perpetuado à população negra e só servem para que racistas durmam de consciência tranquila no travesseiro dos privilégios. Exigimos respeito a nossa história, a nossa dor, e a nossa cultura.

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