Cinema e representações da mulher negra

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Por Luana Protazio

Na palestra “Confessions of a D girl”, no Tedx, Chika Okoro fala sobre as categorias para seleção de elenco do filme Straight Outta Compton. Ela conta que após rolar pelas categorias A, B e C que pedem mulheres magras, cabelo longo e liso e pele média para clara, encontra a chamada para Categoria D: “Afro-americanas, pobre, fora de forma. Devem ter a pele mais escura.” Ao assistir o filme, vemos que às mulheres da categoria D do elenco estão pautadas em cargas de estereótipos negativos históricos. Ainda na linha de pensamento de Okoro, são poucos os filmes com elenco majoritariamente negro no cinema e dentro desse pequeno espaço são ainda mais raras as vezes em que vemos mulheres negras de pele escura representadas positivamente, quando presentes.

Isso é o que chamamos de colorismo no cinema.
O Blogueiras Negras tem um texto riquíssimo sobre o termo, Colorismo: o que é, como funciona?  

O fato é que mulheres negras, em qualquer tom de pele e características físicas, são destinadas a papéis estereotipados em filmes e séries desde sempre. Papéis que reforçam racismo, sexismo e misoginia.

Jogo rápido: pense um pouquinho nestes exemplos de estereótipos mais usados e tente associá-los à filmes já assistidos, são eles: a mulher negra irritada (angry black woman em inglês); a empregada/babá/subalterna da família branca; a jovem negra promíscua, com desesperado apetite sexual, envolvida com drogas e sempre a procura de um homem (jezebel/bad girl em inglês); a mulher negra escandalosa, barraqueira e lida como vadia; e a amiga negra engraçada, entre outros.

Em quantos filmes você pensou? aposto que muitos. São papéis não desenvolvidos, onde muitas vezes a personagem sequer tem um nome na trama.

Os meios de comunicação e mídia tem um lugar de destaque na constituição de imagens e, por isso, o poder de formar identidades no imaginário social. A representação massante da mulher negra como raivosa, barraqueira, promíscua, etc., desde o período pós-abolição, coloca este grupo na pior posição social existente e, ainda, faz com que a sociedade acredite que esta posição lhe é dada por questões naturais e inatas.

Uma faca de dois gumes: para a criança negra, a representação negativa e identificação nula, para o imaginário social, essas são as características inatas de uma mulher negra e, no âmbito das representações, para a comunidade negra no geral.

“(…) estereótipos da mulher negra são, na verdade, construídos para justificar a social, política e econômica subjugação de mulheres negras”, ou seja, esses estereótipos são construídos de forma consciente para a manutenção e reforço do status quo.

Se nós, mulheres e homens negros, somos o que há de ruim, mau e imoral, o oposto à nós é o que há de bom, certo e moral. Se a nós pertence as posições de pouco prestígio social, ao oposto pertence naturalmente os espaços de poder.

Tais construções legitimam desigualdade, discriminação, e até mesmo formas de genocídio, já que contribuem para a desumanização da população negra.

Mulheres negras mudando o jogo

Acredito que nós – e apenas nós – possamos mudar este cenário, e isso vem acontecendo com maestria. Ainda bem que a muito tempo há mulheres negras escrevendo, produzindo e dirigindo com esse intuito. O intuito de transformação.

Lá fora, podemos citar produções de Ava Duvernay, Gina Price Bythewood, Dee Rees, Shonda Rhimes, Issa Rae, entre muitas outras que se empenham em construir narrativas complexas para mulheres negras se identificarem para além dos estigmas.

No Brasil, não ficamos para trás. As mulheres negras são vanguardas nesse quesito, talvez por vermos claramente os impactos das narrativas tradicionais sobre nós. Você sabia que a primeira pessoa a dirigir um longa-metragem no Brasil foi uma mulher negra? Isso mesmo, Adélia Sampaio. O audiovisual é uma forma poderosa de expressão. Conheça:

empoderadas 150x150 - Cinema e representações da mulher negraEmpoderadas

Escrita e dirigida por Renata Martins e Joyce Prado, a websérie conta em primeira pessoa histórias de mulheres negras em diferentes áreas de atuação, como arte – cultura – política – empreendedorismo, entre outras. Renata Martins também dirigiu e roteirizou o curta Aquém das Nuvens, exibido em mais de 10 países.

nacao lapisdecor 4 150x150 - Cinema e representações da mulher negraLápis de cor (Documentário)

Dirigido por Larissa Fulana de Tal, o documentário aborda o racismo no universo infantil e a forma como o padrão de beleza afeta a autoestima e autoimagem de crianças negras. Larissa também dirigiu o filme CINZAS.

 

kblea imagem 150x150 - Cinema e representações da mulher negraKbela

Estreado em 2015, o filme Kbela é um marco no cinema e, particularmente falando, um marco na minha atenção em produções de mulheres negras. Para Yasmin Thayná, diretora e roteirista do curta, o filme é “uma experiência sobre ser mulher e tornar-se negra.” Kbela narra a história de uma menina negra que passou por um processo de embranquecimento durante sua vida e decidiu se libertar disso, deixando o cabelo natural crescer de novo, se livrando da química. Maria Clara Araujo, mulher trans negra, também integra o elenco do filme, o que agrega mais uma discussão importante: o transfeminismo negro.

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Dirigido por Day Rodrigues em parceria com Lucas Ogasawara, o documentário traz contribuições sobre o feminismo negro e sua importância. Conta com depoimentos de Djamila Ribeiro, Ana Paula Correia, Aldenir Dida Dias, Preta Rara, Nene Surreal, Francinete Loiola, Luana Hansen, Monique Evelle e Andreia Alves, e narra a voz dessas mulheres e seus projetos de mundo.

Day tem outros projetos – inclusive em breve dará início à uma coluna aqui na Elogie! – e em todos inclui a importância de narrativas para mulheres negras, como o clipe “Papo Reto” de Craca e Dani Nega, que traz participações de artistas e ativistas negras feministas e você pode assistir aqui: Papo Reto –  Craca e Dani Nega

É necessário ressaltar que mulheres negras não detém poder econômico sobre os meios, o que dificulta o alcance dessas produções, muitas vezes independentes. Que tal voltarmos nossas atenções para essas produções tão positivas para nós?

Como Ava Duvernay nos lembra, não é de hoje que essa elaboração de novas narrativas é feita, porém o espaço para mulheres negras na direção e produção de filmes são escassos e muitas vezes não chegam longe como deveriam.

 

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Cena do filme Kbela

Para finalizar, deixo uma frase do discurso de Viola Davis, primeira mulher negra a ganhar o Emmy de melhor atriz dramática em 2015 por sua atuação em How to Get Away with Murder.

“Deixem-me dizer uma coisa: a única coisa que separa as mulheres negras de qualquer outra pessoa é a oportunidade.”

 

REFERÊNCIAS E PARA SABER MAIS

Adélia Sampaio foi a primeira mulher negra a dirigir um longa metragem. Conheça mais sobre Adélia na entrevista exclusiva para o Blogueiras Negras

Confissões de uma Garota D: Colorismo e Padrões Globais de Beleza | Chika Okoro – Vídeo legendado

AFROFLIX, uma plataforma colaborativa que disponibiliza conteúdos audiovisuais online com, pelo menos, uma área de atuação técnica/artística assinada por uma pessoa negra.

***Este texto foi publicado originalmente em 2016 e atualizado em dezembro/2017. Sua versão original pode ser encontrada na repostagem feita pelo Ceert, sob o título “Como anda a representação da mulher negra em filmes e séries?”

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