Sobre elogios e autoestima. Por que elogiar uma irmã negra?

Sobre elogios e autoestima. Por que elogiar uma irmã negra?

texto por Luana Protazio

 

As mulheres negras que escolhem (e aqui enfatizo a palavra “escolhem”) praticar a arte e o ato de amar, devem dedicar tempo e energia expressando seu amor para outras pessoas negras, conhecidas ou não. Numa sociedade racista, capitalista e patriarcal, os negros não recebem muito amor. E é importante para nós que estamos passando por um processo de descolonização, perceber como outras pessoas negras respondem ao sentir nosso carinho e amor. (bell hooks – vivendo de amor)

Tudo começou numa festa… elogiei duas mulheres negras que nunca havia visto na vida. Foi natural. Elas saíram com um sorrisão no rosto e eu me senti muito bem. Só foi natural devido ao processo de descobrimento e reflexão que eu estava passando no momento.

Por dias fiquei pensando nisso e percebi que não era da minha rotina elogiar mulheres negras, e com certeza não era da minha rotina receber elogios de outras mulheres negras.

O racismo age de muitas formas. A negação diária da mulher negra com seu corpo, cabelo, nariz, e cor de pele é uma de suas ferramentas mais peculiar e discreta. Começa na infância, período importante onde se desenvolve a autoestima e tudo o que acontece é internalizado e forma nossa visão sobre nós mesmos e o outro. A criança negra é submetida à exclusão, chacotas, piadas, e à ridicularização. Para a menina negra se acrescenta o peso do sexismo. A necessidade imposta de ser bonita, meiga e feminina aos 9 anos de idade. E o que é ser bonita, meiga e feminina numa sociedade racista e eurocêntrica? é estar dentro do padrão estético… branco. Como não se encaixa, a menina negra experimenta muito cedo o que é rejeitar o próprio corpo e, como muito bem disse Nátaly Neri no TEDxSãoPaulo Mulheres que Inspiram, passa a esperar pela “mulata” que se apresenta como salvação, mas quando não vem dói e quando vem dói ainda mais.

Para além da estética, o padrão de moral e inteligência também é excludente. O machismo somado ao racismo faz com que nosso potêncial seja desacreditado e pouco estimulado na escola e fora dela. Como consequência, não acreditamos em nós mesmas, não validamos nossas opiniões, nem creditamos nossas idéias por receio e medo. Insegurança, falta de confiança, uma vida de silenciamento sob o véu da inibição.
A falta de conhecimento sobre nossa história e representatividade midiática e em outros espaços sociais também contribuem para barrar nosso acesso a autoestima.

O desejo de pertencer ao que é visto como belo e aceito nos joga no processo de embranquecimento: alisar o cabelo, pó compacto dois tons mais claro, diminuir o contraste das fotos. Esse processo também nos afasta de pessoas como nós, e esse é o ponto forte dessa ferramenta do racismo que quero focar: ele coloca barreiras entre pessoas negras para que eu sinta todo o peso sozinha, e me culpe por isso. Chamo de karma, maldição, ou me sinto a escolhida do universo. Culpo a mim, e não ao racismo, por negar a mim mesma e a outra semelhante a mim.

Diante disso, é fácil entender porque raramente elogiamos pessoas negras.

Quando passo a ter contato com outras mulheres negras, percebo que nossas experiências se esbarram e se assemelham, e então tomo conhecimento do quão complexo é o racismo estrutural e entendo que a culpa não é minha.
Ter a consciência crítica do que é ser mulher negra num país pautado pelo racismo, machismo e sexismo e ainda assim reivindicar nossa identidade faz com que o resgate da autoestima da mulher negra atravesse o campo individual e se torne um ato político e de resistência. Nossas vivencias se encontram, e daí entendemos a necessidade de se apoiar uma na outra, a máxima de que no fim das contas se não fizermos por nós ninguém irá fazer é fato, e também se refere à nossa autoestima.

A elogie uma irmã negra surgiu da minha vivência conflituosa com minha autoestima até certo período, e da necessidade de conhecer minha história. É para mim um espaço muito pessoal, que compartilho por acreditar na irmandade, e no crescimento coletivo. Esse espaço propõe que façamos por nós o resgate, construção, desenvolvimento e manutenção da nossa autoestima estética e intelectual. Sabemos que é um processo diário e às vezes muito dificil. O elogie provém de atitudes simples como reconhecer-se na outra enquanto mulheres com vivências semelhantes [com suas devidas particularidades], fortalecer umas as outras em espaços de debates e/ou nos quais somos minorias, estender a mão e ajudar a outra quando possível, solidarizar, apoiar, e sim, elogiar. Para nos reconhecermos é essencial conhecermos nossa história para além das mentiras que nos foram contadas na escola, assim o conhecimento se torna outro pilar desse espaço. Buscar nossas raízes, ancestralidade e identidade é essencial para o povo negro, e fundamental para nossa luta.


BIBLIOGRAFIA E REFERÊNCIAS
Vivendo de amor, bell hooks

Vivendo de Amor

Por uma visão psicossocial da autoestima de negros e negras, Ana Luiza Julio
periodicos.est.edu.br/index.php/nepp/article/download/79/159

TEDxSãoPaulo Mulheres que inspiram – link em breve.

VALE A PENA LER
‪#‎NuncaFuiTimidaFuiSilenciada‬ – Facebook @ Monique Evelle

7 thoughts on “Sobre elogios e autoestima. Por que elogiar uma irmã negra?

  1. Que lindo o texto, mana! Vamos continuar a luta pelo nosso espaço e auto-estima, vamos resistir. Parabéns pelo trabalho, ele é muito importante para todas nós, saber das feridas faz com que pensemos em cuidar delas para que cicatrização não demore. Estamos juntas! É nós por nós! <3 Beijos!

  2. Viver nessa sociedade racista é muito triste, obrigado pelo texto. como negro que sou vou me esforçar pra desconstruir o racismo que me oprime por dentro e reconhecer nossa beleza negra

  3. Eu me lembro quando estava no ensino fundamental que havia uma menina branca de olhos verdes e cabelos claros, porém afro. O quanto pegavam no pé dessa menina, falando que seu cabelo era ruim e assim por diante. Isso vai além da agressão pessoal cometida contra essa garota, mostra o quanto qualquer sinal de descendência africana será imediatamente execrada. Para que mudemos isso é necessário um forte posicionamento a favor da identidade negra, principalmente dos próprios negros e negras. Não tornar o alisamento de cabelo como regra (afinal não posso dizer o que uma pessoa deve ou não fazer com seu corpo) pode ser um começo, causará estranheza e até revolta: “O que ela pensa que é para deixar esse cabelo alto? Há tantas técnicas para reduzir o volume…” Mas, sim, trata-se de uma resistência: Os traços e feições africanas não continuarão a ser minimizados com maquiagens que “afinam” o nariz, com cabelos totalmente antinaturais com a condição natural da genética africana. Até que finalmente, as pessoas se acostumarão e não acharão isso mais um problema, que de fato realmente não é se forem retirados todos esses vieses racistas.

  4. Lindo texto! descreve muito bem, o que nós mulheres pretas passamos desde a escolinha. Hoje, eu sei que sofro racismo, mas imagina uma menina da década de 90 sofrendo sem saber o pq, não entendendo pq sempre era alvo das “brincadeiras”, não entendendo pq nenhum garoto lhe olhava…Hoje eu já sei. E sabendo disso, toda vez que vejo uma menina preta na rua eu dou um sorriso (sempre sou correspondida), principalmente quando a menina está com o cabelo crespo ou acabou de fazer o BC (seeeemmmpreee rola um sorrisinho). Na semana passada, eu estava com a auto estima meio baixa, então decidi me arrumar todos os dias e postar uma foto no face, tive várias curtidas, comentários e tal. E isso me fez bem! Pq fui elogiada principalmente por meninas pretas, várias vieram me chamar in box, conversamos e eu disse o quanto aqui era importante, pois eu não estava ali querendo aparecer pra homem nenhum, mas sim pra elas! Fora as pretinhas pequenas (filhas das meninas q conheço) que me viram e acharam o máximo, isso é representatividade!

    1. Obrigada Andressa! Ah, que coisa linda, seeeeeempre rola um sorrisinho, sei como é! Hahaha Fico feliz que tenha te feito bem, isso é muito importante para nós. Beijao <3

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: