Sobre elogios e autoestima. Por que elogiar uma irmã negra?

elogios e autoestima
Por Luana Protazio

 

Tudo começou em uma festa… elogiei duas mulheres negras que nunca havia visto na vida. Foi natural. Elas saíram com um sorrisão no rosto e eu me senti muito bem. Foi natural devido ao processo de descobrimento e reflexão que eu estava passando no momento.

Por dias fiquei pensando nisso e percebi que não era da minha rotina elogiar mulheres negras, e com certeza, não era rotineiro para mim receber elogios de outras mulheres negras.

Nossa autoestima começa a ser construída e desenvolvida na infância, a partir do olhar do outro sobre nós e do nosso próprio olhar. Nesse período importante, crianças negras são alvo de chacotas e piadas racistas sobre o cabelo, traços físicos, cor de pele.. temos nossa imagem animalizada e traços ridicularizados.

Me lembro claramente de ver professores e diretores, que deveriam ser o alicerce para uma educação livre de discriminações, se omitindo diante dessas situações e sendo conivente com o racismo sob a desculpa de ser apenas brincadeira de criança.

Para a menina negra, há ainda o peso histórico da hipersexualização. Recentemente, o relatório Infância Interrompida: O Apagamento da Infância de Crianças Negras, demonstrou que meninas negras são vistas como menos inocentes do que brancas, por adultos. Isso afeta diretamente o tratamento dado à essas meninas e suas percepções.

Na mídia, a representação é nula ou negativa, perpetuando estereótipos e nos colocando num lugar único de objetificação e/ou invisibilidade, contribuindo com as dificuldades de nos identificarmos positivamente como sujeitos negros. 

Sob uma imposição de padrão de beleza eurocêntrico, o qual não pertencemos e nunca pertenceremos, tivemos nosso direito ao pertencimento negado. Para as mulheres negras foi empurrado o auto-ódio e conflito de identidade numa sociedade que nos faz sentir como se estivéssemos sempre fora do lugar.  

Para além da estética, este processo excludente também impõe padrões morais e intelectuais afim de minar nosso potencial e capacidade. Crescemos inibidas, com dificuldades de confiar em nós mesmas e com nossas idéias, opiniões, vozes, projetos e necessidades constantementes silenciados.

Afetividade negra em nossas vidas

O amor qual me refiro neste texto não é apenas ao amor romântico nos moldes afetivo/sexual, mas o amor como ação e expansão de afetividade, reconhecimento e atenção às nossas necessidades interiores.

Nossa experiência com o amor e afeto sofreu impactos a partir do período escravocrata e pós abolição que seguem até os dias atuais. Houve apagamento, desumanização, repressão e opressão. O mesmo mito da democracia racial que nos inferioriza e impede o desenvolvimento da nossa autoestima, nos distancia de nós mesmos e de outras pessoas negras como se essa condição fosse natural – mas não é.

Essa barreira invisível é criada para dificultar o sentimento de pertencimento e reprimir os vínculos afetivos negros em todos os âmbitos, assim, nos manter perdidos no embranquecimento.

Por que elogiar uma irmã negra?

Diante disso tudo, é fácil entender porque raramente elogiamos pessoas negras. Não tivemos a oportunidade de desenvolver nossa autoestima, olhar-nos no espelho e enxergarmos nossa beleza e valor de sermos quem somos e expor o que pensamos.

Quando passamos a ter contato com outras mulheres negras e suas experiências, fazemos esta leitura e a compreendemos como uma questão racial – e não um karma individual. Neste momento, nossas vivências se encontram, e entendemos a importância de apoiarmos uma às outras, numa verdadeira rede, pois a máxima de que no fim das contas se não fizermos por nós ninguém fará é verdadeira.

As mulheres negras que escolhem (e aqui enfatizo a palavra “escolhem”) praticar a arte e o ato de amar, devem dedicar tempo e energia expressando seu amor para outras pessoas negras, conhecidas ou não. Numa sociedade racista, capitalista e patriarcal, os negros não recebem muito amor. E é importante para nós que estamos passando por um processo de descolonização, perceber como outras pessoas negras respondem ao sentir nosso carinho e amor.
(bell hooks – vivendo de amor)

A Elogie uma irmã negra nasce como um espaço de autoestima, conhecimento e afetividade, resultado de um longo processo de reflexão sobre minha própria experiência, por vezes conflituosa, com essas questões.

Estes temas nos são caros mas potencialmente libertadores se ousarmos praticá-los.

Portanto, proponho que façamos por nós a construção, desenvolvimento e manutenção da nossa autoestima e afetividade como uma ferramenta de luta e emancipação preta, através da ação. Eu só consigo admirar e enxergar a capacidade e beleza de outra mulher negra, se eu conseguir enxergar a minha própria capacidade e beleza. Isso é expansão.

Nada disso se mantém sem uma base, nossa mais potente ferramenta: o conhecimento.
É
importante conhecermos nossa história para além do que a narrativa branca apresenta: nossas heroínas e heróis, rainhas e reis, construções e produções a serem consumidas e absorvidas. É preciso centralizar nossas trajetórias!

Eu acredito na revolução de mulheres negras em harmonia com outras e consigo mesmas, e você? No texto já citado da bell hooks, ela finaliza deixando o gostinho de “vamos em frente!” que eu quero deixar aqui, então deixarei ela falar por mim,

“Quando nós, mulheres negras, experimentamos a força transformadora do amor em nossas vidas, assumimos atitudes capazes de alterar completamente as estruturas sociais existentes. Assim poderemos acumular forças para enfrentar o genocídio que mata diariamente tantos homens, mulheres e crianças negras. Quando conhecemos o amor, quando amamos, é possível enxergar o passado com outros olhos; é possível transformar o presente e sonhar o futuro. Esse é o poder do amor. O amor cura.”

***Este texto foi publicado originalmente em 2015 e atualizado em janeiro/2018. A versão original pode ser lida na repostagem feita pelo Geledés – Instituto da mulher negra.

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