Tire seu racismo da folia!

Tire seu racismo da folia!

texto por Luana Protazio

 

Carnaval chegando, blocos de rua anunciados, todo mundo eufórico querendo aproveitar o feriado, inclusive a mulher que vos escreve. Porém, de antemão o que me preocupa é que mulheres negras são muito lembradas na folia de rua, mas não de forma positiva. Vocês sabem, na outra ponta da invisibilidade está a objetificação, nesse caso, aliada a desumanização.

Nas ruas peruca “black power”, enchimento na bunda, tintura preta na pele, e batom exagerado para aparência maior, assim encontramos muitos fantasiados aos risos, e, quando questionados, querem nos fazer acredita que a ofensa é homenagem. Aham

Perdi a conta de quantas vezes já dissemos “não somos fantasia de carnaval, não somos objeto pro teu riso, isso é ofensivo!” mas parece muito difícil entender já que ainda temos que repetir. Portanto serei didática, mais uma vez, como muitas antes de mim já foram.

Para contextualizar, o blackface é uma prática difundida por menestréis no século XIX, onde atores brancos pintavam a pele de preto com carvão de cortiça para representar personagens negros de forma caricata, ridícula, pejorativa, disseminando estereótipos sobre o negro. Além disso, a prática excluia e até hoje exclue a oportunidade de pessoas negras representarem a si mesmas. Vemos isso no teatro, no cinema, na moda, na comédia, nas redes sociais, e por aí vai.. sempre com a desculpa fajuta de ser uma homenagem à pessoa negra.

Dos teatros do século 19…

ao carnaval 2015/2016. | o bloco Domésticas de Luxo, fundado em 1958 e composto apenas por homens brancos, se fantasiam todos os anos de mulheres negras de forma esdrúxula e insistem em dizer que é uma homenagem às empregadas domésticas.

Agora, pense, ainda que sem o uso do blackface ou a fantasia denominada “nega maluca”, uma versão brasileira do blackface, e fazendo uso de outras características para se assemelhar à mulher negra ou ao homem negro, como a peruca black power, o que leva alguém a desumanizar tanto o outro a ponto de vê-lo como possibilidade de fantasia carnavalesca? Oras, eu sou negra o ano todo, com meu cabelo crespo, que cresce para cima, e minha pele negra, naturalmente. Eu pago impostos, vou ao mercado, frequento a mesma faculdade que você (pasme!), eu sou uma pessoa real. Nós somos pessoas reais. E em números somos mais da metade da população brasileira.

Em sua tese Entre o “encardido”, o “branco” e o “branquíssimo”: raça, hierarquia e poder na construção da branquitude paulistana, Lia Schucman aborda a branquitude, e em linhas gerais, o que é ser branco no Brasil. O estudo explica que o branco não se pauta racializado, para si e seus iguais são os seres naturais, portanto se vê sujeito universal, padrão, e inconscientemente ou não, entende que os grupos racializados é que devem chegar ao patamar estético, moral, ético, etc. do ser universal. A branquitude é produzida pela ideia de superioridade racial branca, e resulta em sociedades estruturadas pelo racismo, onde brancos adquirem privilégios em detrimento de outros grupos sociais. (SCHUCMAN, Lia Vainer)
Ruth Frankenberg define: “a branquitude como um lugar estrutural de onde o sujeito branco vê os outros, e a si mesmo, uma posição de poder, um lugar confortável do qual se pode atribuir ao outro aquilo que não se atribui a si mesmo”. (Frankenberg, 1999b, pp. 70-101, Piza, 2002, pp. 59-90).

É se pautar como universal que o faz enxergar o não-branco plausível de fantasia para risos, para extrapolar o ridículo e o senso de ofensa.

Não há homenagem no racismo, afirmo ainda que essas mulheres negras representadas em fantasias nem sequer existem. Essa versão caricata que se têm de nós é racista, estereotipada, desumana, e vêm de uma visão única, inclusive. Somos mulheres negras distintas, com texturas de cabelo diferentes, gostos diferentes, tamanhos diferentes, tom de pele diferentes. A pele negra tem mais de 80 tonalizações. Se fantasiar de mulher negra é um racismo que grita, que dá gargalhada em nossa cara, que aponta o dedo e anuncia a desumanização, mas como toda prática racista, diz mais sobre você, branco, em sua posição privilegiada, a não racialização, e desejo de manutenção dessa estrutura, do que sobre nós.

Quer homenagear mulher negra, procure entender a estrutura historicamente racista em que vivemos, que lhe dá privilégios em detrimento de outros grupos, e não use deste para escolher não enxergar essa realidade, pois do lado de cá não temos essa escolha. Quer homenagear mulher negra, antes de sair de casa neste carnaval, tenha certeza que não está levando práticas racistas e sexistas, e não se esqueça de exercer o respeito e empatia. 

REFERÊNCIAS
Lia Vainer Schucman. Entre o “encardido”, o “branco” e o “branquíssimo”: raça, hierarquia e poder na construção da branquitude paulistana, disponível em http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47134/tde-21052012-154521/pt-br.php

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